Nunca é fácil. Ir para o primeiro dia de aula na escola, na faculdade, no trabalho. Ir jantar pela primeira vez com o namorado, conhecer a sogra, embora de casa. A dificuldade é intrínseca ao verbo ir. Ir, deixar ir, deixar-se ir. Tudo remete a movimento, rotatividade, mudança. E como as mudanças fazem a gente se endurecer atrás do escudo natural, o medo que ela desperta é o que faz dela tão poderosa. O que não se teme não exerce poder nenhum, afinal.
Ir é libertar-se e pra se libertar você tem que abrir algumas feridas, alguns cortes, para que tudo o que tem vida possa sair e te transformar em outro. Ir é saber que algumas coisas vão mudar, mas que ainda assim você tem todas as ferramentas pra continuar fazendo o que sempre fez. Ir é saber reconhecer a essência das coisas e como tudo isso pode se relacionar com o seu eu, ido e mudado. Ir é apostar e perder. Ou ganhar.
Deixar ir também é igualmente difícil. Se a saudade te mata por dentro é porque o ir está agindo em você. O ir é implacável: cedo ou tarde todos vamos. E quando essa hora chegar, você provavelmente não vai estar preparado. E vai sofrer e vai doer. São as feridas do ir cravando em você o que de mais importante você vai levar. São os cortes que a vida te abre e que vêm acompanhados de bálsamo. O ir também pode vir carregado de amor.
Deixar-se ir, por sua vez, pode ser ainda pior. Se jogar, acreditando ou não em alguma coisa, é dom de poucos. Deixar-se ir e ver que tudo o que te espera vai ser ainda melhor do que o que te prende a algum lugar pode ser um santo remédio pra dor do ir. As feridas do ir agora te ferem pessoalmente, como briga pessoal e intransferível. Agora é você olho no olho com você mesmo. Os cortes são grandes e você precisa se renovar. Você tem que deixar tudo o que passou, mas levar com você a cicatrizes do ir. Agora o ir vem, te arrebenta no meio, mas você segue firme. Você vai seguir muito melhor. Recarregado, renovado. As feridas do ir podem te fazer bem.
Ir quase nunca é bom.
Mas sem ir, como é que se chega a algum lugar?
Montevidéu, 20 de dezembro de 2010. meu último dia na capital sorriso do uruguai.


























